"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

domingo, 8 de agosto de 2010

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES I . VAZIO



EDWARD YANG . YI YI . 2000


As emoções têm de ser cultivadas, educadas para que possam sobreviver, provavelmente um processo semelhante ao de Cartier Bresson quando se disponibiliza para captar o momento decisivo.

Imagino as emoções como um copo de cerveja, acaba sempre por ficar vazio, e necessita de um esforço adicional para se manter cheio. Esforço a nível físico pois poucos são os que aguentam o copo permanentemente cheio, exceptuando claro os que fingem que bebem, odeio esses, e um esforço a nível monetário pois pesa na carteira. O desafio será encontrar o equilíbrio entre o peso da carteira e o volume do líquido no copo.

Insustentável leveza do ser? Será insustentável ser leve ou a consciência dessa leveza? Certamente os conscientes dessa leveza não a poderão sentir, jamais! A consciência não o permitiria e os inconscientes não se apercebem disso para o descreverem. Restam-nos apenas falsos testemunhos. Odeio os que fingem que bebem. Venero os que assumidamente não bebem, justos são esses, com os seus gestos leves e contínuos, descarregados de pretensiosismo. Repletos de um vazio que alenta.

O vazio torna tudo mais fácil, no vazio, no vácuo, a matéria não tem peso, os pensamentos transformam-se em graciosos gestos e reagir é dançar. No vazio nunca chove e faz frio, permanece uma temperatura amena, não demasiadamente quente nem fria, um constante sol aquece-nos os corpos descobertos. Sim, no vazio não se usa roupa, não existe a necessidade física nem a psicológica, não temos de esconder a nossa aparência, assumimo-la, e não temos de evitar a pulsão sexual pois ela é permanente vivemos num coito permanente.

Odeio os que têm horror ao vazio. Sempre a ocupar aqueles espaços que estavam destinados a ficarem vazios, preenchem-nos com algo desnecessário, adornam-nos com ornamentos e bibelôs. Tornam-se mais leves? Mais graciosos? Aparentemente é possível mas não será uma leveza insustentável, será uma leveza fácil de carregar e volátil que os transportará para uma trip viciosa que terá de ser constantemente alimentada acabando por os consumir. Quando damos conta é demasiado tarde e já não gostamos de cerveja, o nosso paladar tornou-se apurado e não toleramos esses néctares primários, Rejubilar a vida com cinismo, é o que isso é.

O recente filme de Sophie Barthes, Cold Souls, uma comédia negra carregada de questões filosóficas abordadas de forma ligeira levanta uma importante questão. Se pudéssemos olhar para dentro, fazíamo-lo?

Temos consciência da dormência? Sentimos os membros do corpo? De quem é este pé que está agarrado a minha perna e é tão diferente da minha memória. Tens-te olhado ao espelho recentemente?

Yi Yi fez-me recordar, voltar a sentir o que é ser criança, ou o que me lembro disso.

A ouvir Low Birth Weight dos Piano Magic e a escrever sem reler, este será o desafio deste blog, desta plataforma de partilha. Um espaço a ser preenchido com o peso que carregamos diariamente em busca de uma possível leveza. Textos eternamente inacabados e, possivelmente, continuados por outros.

Filipe dos Santos Barrocas . 08 . 08 . 2010 . São Paulo