"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

sábado, 25 de dezembro de 2010

VIAJAR I . FERNANDO PESSOA



AVENIDA PAULISTA . SÃO PAULO . FOTOGRAFIA DE FILIPE DOS SANTOS BARROCAS . DEZEMBRO 2010
Faze as malas para parte nenhuma!
Embarca para a universalidade negativa de tudo
com um grande embandeiramento de navios fingidos
dos navios pequenos, multicolores, da infância!
Faz as malas para o grande abandono! 

E não esqueças, entre as escovas e a tesoura,
a distância policroma do que se não pode obter.
Faze as malas definitivamente!
Que és tu aqui, onde existes gregário e inútil 

E quanto mais útil mais inútil 
e quanto mais verdadeiro mais falso 
que és tu aqui? Que és tu aqui? Que és tu aqui?
Embarca, sem malas mesmo, para ti mesmo diverso!
Que te é a terra habitada senão o que não é contigo? 

 
Álvaro de Campos

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES II . ANSIEDADE E EXPECTATIVA

Ansiedade e expectativa, sentimentos que definem a antecedência do momento preciso, concreto e real.

Necessidade de partilha.
Necessidade de pertencer.
Necessidade de (me) re/encontrar.
Necessidade de sentir e registar esse sentimento.
Necessidade de confluir o que se sente em imagens que reflictam os momentos de partilha e intimidade.
Invejo a intimidade alheia. Desejo um momento de intimidade perpétuo e infinito.
Desejo que estes momentos nunca acabem, que os olhares não se deixem de cruzar, que nunca mais me sinta sozinho. Nestes momentos carregados de álcool e boa disposição eu existo.

Quero existir em todos que me acompanham. Quero acompanhar-vos até ao dia da minha morte. Quero morrer acompanhado. Quero percorrer os meus dias permanentemente acompanhado por vós, aqueles que pretendo acompanhar. Um momento contínuo e preciso em direcção a todos vocês:

Vocês que amo.
Vocês que adoro.
Vocês que desejo.
Vocês que procuro.
Vocês por quem sofro.
Vocês que sofrem por mim.
Vocês que odeio.
Vocês que não odeio.
Vocês que me odeiam.
Vocês que quero odiar.
Todos vocês.

Odeio-vos todos por precisar de todos vós, cada um de vós.
Necessito de cada um de vós e não de um em especial. Todos são necessários pelas suas especificidades e particularidades, se um me abandona eu sofro. Sofro por não vos possuir totalmente. Frágeis as relações que permanecem na base da necessidade e possessão.
Necessito de possuir cada um de vós para me encontrar na minha plenitude.
Cada um de vós necessito eu possuir para completar estes interstícios de ser que existem em mim, criatura fragmentada, parcelada.

O todo não é a soma das partes? As partes constituem diversos todos, incompatíveis, desconexos, irregulares. Diversos todos que habitam no meu ser, que me definem.
Não sou mais que um pouco de cada um de vós que habita em mim.

Sou todos vocês.
Sou todos vocês.
Sou todos vocês.
Sou todos e mais.
Sou todos mais que encontrarei no meu caminho.

De todos e nenhum em especial, eu preciso. Eu preciso de mim. Eu quero-me. Eu preciso de mim e perco-me um pouco em todos vós. Cada um de vós morde o meu frágil corpo dilacerando-o em pedaços, fragmentos de ser que dificilmente sobreviverão sozinhos.
Pobres fragmentos desamparados. Pobres pedaços inconsequentes. Tínhamos tantos planos para vocês. Imaginávamos um futuro repleto de sucessos e conquistas. Cada um destes pedaços parecia tão promissor.
Pobres pedaços inconsequentes que desaparecerão na expectativa de se tornarem alguém.
Pobres fetos assassinados, abortos de gente promissora.
O mundo só teria a ganhar com a vossa presença.

O mundo perde-se diariamente um pouco mais nas múltiplas mortes de cada um de nós, nos abortos cometidos sem escrúpulos.

Esvazio a cabeça, deito-me e durmo.

Filipe dos Santos Barrocas . 12 . 12 . 2010 . São Paulo

domingo, 8 de agosto de 2010

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES I . VAZIO



EDWARD YANG . YI YI . 2000


As emoções têm de ser cultivadas, educadas para que possam sobreviver, provavelmente um processo semelhante ao de Cartier Bresson quando se disponibiliza para captar o momento decisivo.

Imagino as emoções como um copo de cerveja, acaba sempre por ficar vazio, e necessita de um esforço adicional para se manter cheio. Esforço a nível físico pois poucos são os que aguentam o copo permanentemente cheio, exceptuando claro os que fingem que bebem, odeio esses, e um esforço a nível monetário pois pesa na carteira. O desafio será encontrar o equilíbrio entre o peso da carteira e o volume do líquido no copo.

Insustentável leveza do ser? Será insustentável ser leve ou a consciência dessa leveza? Certamente os conscientes dessa leveza não a poderão sentir, jamais! A consciência não o permitiria e os inconscientes não se apercebem disso para o descreverem. Restam-nos apenas falsos testemunhos. Odeio os que fingem que bebem. Venero os que assumidamente não bebem, justos são esses, com os seus gestos leves e contínuos, descarregados de pretensiosismo. Repletos de um vazio que alenta.

O vazio torna tudo mais fácil, no vazio, no vácuo, a matéria não tem peso, os pensamentos transformam-se em graciosos gestos e reagir é dançar. No vazio nunca chove e faz frio, permanece uma temperatura amena, não demasiadamente quente nem fria, um constante sol aquece-nos os corpos descobertos. Sim, no vazio não se usa roupa, não existe a necessidade física nem a psicológica, não temos de esconder a nossa aparência, assumimo-la, e não temos de evitar a pulsão sexual pois ela é permanente vivemos num coito permanente.

Odeio os que têm horror ao vazio. Sempre a ocupar aqueles espaços que estavam destinados a ficarem vazios, preenchem-nos com algo desnecessário, adornam-nos com ornamentos e bibelôs. Tornam-se mais leves? Mais graciosos? Aparentemente é possível mas não será uma leveza insustentável, será uma leveza fácil de carregar e volátil que os transportará para uma trip viciosa que terá de ser constantemente alimentada acabando por os consumir. Quando damos conta é demasiado tarde e já não gostamos de cerveja, o nosso paladar tornou-se apurado e não toleramos esses néctares primários, Rejubilar a vida com cinismo, é o que isso é.

O recente filme de Sophie Barthes, Cold Souls, uma comédia negra carregada de questões filosóficas abordadas de forma ligeira levanta uma importante questão. Se pudéssemos olhar para dentro, fazíamo-lo?

Temos consciência da dormência? Sentimos os membros do corpo? De quem é este pé que está agarrado a minha perna e é tão diferente da minha memória. Tens-te olhado ao espelho recentemente?

Yi Yi fez-me recordar, voltar a sentir o que é ser criança, ou o que me lembro disso.

A ouvir Low Birth Weight dos Piano Magic e a escrever sem reler, este será o desafio deste blog, desta plataforma de partilha. Um espaço a ser preenchido com o peso que carregamos diariamente em busca de uma possível leveza. Textos eternamente inacabados e, possivelmente, continuados por outros.

Filipe dos Santos Barrocas . 08 . 08 . 2010 . São Paulo

terça-feira, 27 de julho de 2010

O RETORNISTA II

"I have this strange feeling that I'm not myself anymore. It's hard to put into words, but I guess it's like I was fast asleep, and someone came, disassembled me, and hurriedly put me back together again. That sort of feeling." haruki murakami . sputnik sweetheart

domingo, 11 de julho de 2010

O RETORNISTA I

"Passamos imperceptivelmente de uma cena, de uma idade, de uma vida para outra. De repente, ao descer uma rua, seja realidade ou sonho, apercebemo-nos pela primeira vez de que os anos passaram, de que tudo isso passou para sempre e só viverá na nossa memória; e depois a memória vira-se para o seu interior, com um estranho e pegajoso brilho, e passamos perpetuamente por essas cenas e incidentes, em sonho e devaneio, enquanto caminhamos pela rua, quando estamos deitados com uma mulher, quando estamos a ler um livro, quando estamos a conversar com um estranho... De repente, mas sempre com terrível insistência e sempre com terrível precisão, essas lembrança intrometem-se como fantasmas, e impregnam toda a fibra do nosso ser. Daí em diante, tudo se move em níveis mutáveis - os nossos pensamentos, os nossos sonhos, os nossos actos, a nossa vida inteira. Um paralelogramo no qual caímos de uma plataforma do nosso andaime para outra. Daí em diante, caminhamos divididos em miríades de fragmentos iridescentes, como um insecto com uma centenas de pés, uma centopeia de pés macios e ágeis que absorve a atmosfera; caminhamos com filamentos sensíveis que bebem avidamente o passado e futuro, e todas as coisas se fundem em música e tristeza, caminhamos contra um mundo unido, afirmando a nossa divisão." henry miller . primavera negra . 1963