Ansiedade e expectativa, sentimentos que definem a antecedência do momento preciso, concreto e real.
Necessidade de partilha.
Necessidade de pertencer.
Necessidade de (me) re/encontrar.
Necessidade de sentir e registar esse sentimento.
Necessidade de confluir o que se sente em imagens que reflictam os momentos de partilha e intimidade.
Invejo a intimidade alheia. Desejo um momento de intimidade perpétuo e infinito.
Desejo que estes momentos nunca acabem, que os olhares não se deixem de cruzar, que nunca mais me sinta sozinho. Nestes momentos carregados de álcool e boa disposição eu existo.
Quero existir em todos que me acompanham. Quero acompanhar-vos até ao dia da minha morte. Quero morrer acompanhado. Quero percorrer os meus dias permanentemente acompanhado por vós, aqueles que pretendo acompanhar. Um momento contínuo e preciso em direcção a todos vocês:
Vocês que amo.
Vocês que adoro.
Vocês que desejo.
Vocês que procuro.
Vocês por quem sofro.
Vocês que sofrem por mim.
Vocês que odeio.
Vocês que não odeio.
Vocês que me odeiam.
Vocês que quero odiar.
Todos vocês.
Odeio-vos todos por precisar de todos vós, cada um de vós.
Necessito de cada um de vós e não de um em especial. Todos são necessários pelas suas especificidades e particularidades, se um me abandona eu sofro. Sofro por não vos possuir totalmente. Frágeis as relações que permanecem na base da necessidade e possessão.
Necessito de possuir cada um de vós para me encontrar na minha plenitude.
Cada um de vós necessito eu possuir para completar estes interstícios de ser que existem em mim, criatura fragmentada, parcelada.
O todo não é a soma das partes? As partes constituem diversos todos, incompatíveis, desconexos, irregulares. Diversos todos que habitam no meu ser, que me definem.
Não sou mais que um pouco de cada um de vós que habita em mim.
Sou todos vocês.
Sou todos vocês.
Sou todos vocês.
Sou todos e mais.
Sou todos mais que encontrarei no meu caminho.
De todos e nenhum em especial, eu preciso. Eu preciso de mim. Eu quero-me. Eu preciso de mim e perco-me um pouco em todos vós. Cada um de vós morde o meu frágil corpo dilacerando-o em pedaços, fragmentos de ser que dificilmente sobreviverão sozinhos.
Pobres fragmentos desamparados. Pobres pedaços inconsequentes. Tínhamos tantos planos para vocês. Imaginávamos um futuro repleto de sucessos e conquistas. Cada um destes pedaços parecia tão promissor.
Pobres pedaços inconsequentes que desaparecerão na expectativa de se tornarem alguém.
Pobres fetos assassinados, abortos de gente promissora.
O mundo só teria a ganhar com a vossa presença.
O mundo perde-se diariamente um pouco mais nas múltiplas mortes de cada um de nós, nos abortos cometidos sem escrúpulos.
Esvazio a cabeça, deito-me e durmo.
Filipe dos Santos Barrocas . 12 . 12 . 2010 . São Paulo