"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

domingo, 15 de maio de 2011

PEQUENAS ESTÓRIAS IV . CAIU UM ANJO EM SÃO PAULO

Divindade rejeitada por um fatal movimento em falso, a perdição de um olhar. Perdido caio sem me aperceber. Num determinado momento estou a planar sobre pinheiros, no momento seguinte, inesperadamente, estou caído no chão.
 
Onde estão as minhas asas?
 
Das costas uivam rasgos de dor e, das omoplatas dilaceradas, escorre sangue.
 
Onde estou?
 
Devido ao choque da queda perco momentaneamente o norte. Confuso e dorido, procuro abrigo. Presente na memória só os seus olhos. Indefeso, cubro-me com o primeiro pedaço de tecido pendurado no estendal mais próximo (como se estivesse em Lisboa), e arrasto-me pelas ruas até chegar à Avenida Paulista. Desloco-me discretamente atento procurando entender a conversa alheia do casal que anda à minha frente, acelero o ritmo da passada. 

Oiço o que dizem mas não coincide com o que pensam. O espírito dele, jovem e indomável, confiante, percorre mentalmente as conquistas afectivas recentes enquanto os seus lábios proferem juras de amor. Ela sorri e acena ligeiramente com a cabeça na sua direcção, num gesto descontraído como se libertasse todo o peso que carregava no seu ombro.
 
Tenho de apagar da memória os seus tentadores olhos, aquele olhar. Tenho de encontrar um lugar sagrado para purificar a minha alma e prosseguir caminho. Estou perdido, não sei se esta é a direcção correcta. Oiço sinos de Igreja, devo estar perto, viro na Brigadeiro em direcção ao centro.
 
Os jovens casais a beijarem-se na calçada só me fazem recordar os seus volumosos e definidos lábios a aproximarem-se da minha testa, no sentido de confirmarem a tepidez da minha pele, comprimem-se suavemente. O seu olhar marcado de medo não escondia a emoção contida, o inalcançável amor transparecia no reflexo dos seus olhos.
 

Ajudou-me a erguer, cobriu o meu corpo amachucado com um lençol do estendal da casa da mãe, avisou-me: “cuidado com o escuro”. Ao virar-se na direcção do portão, oferecendo-me as costas, aperta-me o coração. Parte do que me mantinha vivo até então afastava-se para não mais voltar, eu disse: “tenho medo”. Ela, pela porta entreaberta, profere baixinho: “não é o fim”, fechando a porta.
 
Se ao menos voltasse a ser aceite, com as minhas asas, chegarei mais facilmente até ela, posso acompanha-la. Ansioso, acelero o passo, quero logo chegar. A Igreja estava fechada.

Filipe dos Santos Barrocas . 00:00 . 16 . 05 . 2011 . São Paulo

WHERE I´M FROM II




MONTEMURO . FOTOGRAFIAS DE ISABEL CORREIA . MAIO DE 2010

sábado, 14 de maio de 2011

PEQUENAS ESTÓRIAS III . A EFÉMERA



domingo, 8 de maio de 2011

PEQUENAS ESTÓRIAS II . O HOMEM QUE CERTO DIA ACORDOU APERCEBENDO-SE QUE NÃO TINHA CORAÇÃO

Hoje acordei e apercebi-me que não estava inteiro, persistia uma sensação estranha de não estar completo, faltava algo. Rapidamente, no limiar do pânico, levanto-me e observo-me no espelho. Uma cabeça, dois braços, duas pernas, e um tronco, está cá tudo. Até as mãos e os pés continuam nas extremidades dos membros. Olho com mais atenção, tenho de ter a certeza, alguém poderia ter-me arrancado um braço durante a noite, e mesmo assim o sentir, é uma sensação recorrente de quem perdeu um membro recentemente. Nada como um teste para me certificar, pego numa caneta e num pedaço de papel e, sem o dizer em voz alta, levo a minha mão a executar o que só a minha cabeça sabia. Os braços existem. Não me passa pela cabeça ser uma perna pois não estaria de pé, é evidente. Volto para a cama e concentro-me na persistente sensação.
 
Haverá certamente uma explicação lógica para o fenómeno, em 28 anos, era a primeira vez que sucedia. Fechos os olhos e concentro-me na ausência, acreditando que, preenchendo-a, como se de um molde se tratasse, poderia identificar a sua forma. Poderia fazer uma lista mental das diversas partes do corpo e suas formas, e reconhecer imediatamente o elemento em falta, repondo-o no seu lugar.
 
Ao me concentrar, apercebo-me que a ausência não tem forma definida, ora distendida, ora contraída, adapta-se aos espaços existentes no meu corpo, acompanhando regularmente os ciclos da respiração. Distendendo, o peso da ausência espalha-se por todo o corpo entorpecendo-me os sentidos, impedindo-me de me mover. O corpo fica mais pesado. A ansiedade aumenta à medida que o peso persiste. Ao contrair, sinto como se me extraíssem a força vital, em contraponto ao peso anteriormente existente, fica apenas a leveza do vazio. O inconsequente, apático e não produtivo vazio.
 
No escuro desta manhã de Outono, com uma breve brisa a correr pela pequena janela, deixo-me ficar na cama. Na escuridão oiço o que me envolve, oiço o chiar dos travões nos pneus, oiço vozes na calçada, oiço e petrifico, algo não está correcto. Não oiço o bater do coração.

Filipe dos Santos Barrocas . 08 . 05 . 2011  . São Paulo

sábado, 7 de maio de 2011

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES IV . VIAJAR

Chile com a defesa, lugar comum de uma breve passagem por Buenos Aires. Se Mafalda espera aqui à 2 anos, não me importo de esperar também e fazer-lhe um pouco de companhia num dia frio e ventoso como este. À beira da partida fazia falta parar por um momento. Com a carapaça capitalista penetrada e as sensíveis entranhas expostas, aguardo a chegada do café, balouçando sobre os dias passados. Observo a familiaridade conquistada à cidade. O peso que carregava foi levado juntamente com a minha carteira e o meu telefone, nem a inconsequente tentativa de me legalizar parece perturbar a tranquilidade encontrada. Sinto-me escolhido.
 
Navegando em mares tempestuosos, observo a esperançosa costa alcançável, nem os inúmeros dias sem me alimentar me impedem de prosseguir na sua direcção, uma força inimaginável preenche-me e me transporta. Não preciso de ninguém que navegue a embarcação por mim, o vento torna-se favorável. Alcançarei a margem grato pelas solidárias embarcações com que me cruzei, o clima afortunado que me seguiu e as permissivas tréguas impostas pelos meus inimigos.
 
Sou perfeito na minha imperfeição, e aceito-me.
 
Saúdo-vos a todos que me toleram.
 
Saúdo a vós que partilhais da divina missão que recai sobre mim, de existir, existindo no mais pequeno gesto, diariamente.
 
A vós que dais graça pela diária bênção do oxigénio sobre os vossos pulmões, saúdo-vos, permitis-me gozar cada inspiração e expiração.
 
Fodeu!
 
Morro a poucos metros da costa.
 
Quando consigo estar a distância suficiente para distinguir a margem um impulso leva-me a deixar a pequena embarcação e mergulhar. O instinto aflora em mim características de exímio nadador, embora não conscientes, observo cada braçada conscientemente. Efectuando graciosos movimentos, vencendo a inércia da água, deslizo suavemente na sua superfície. Atento à postura que faria qualquer monitor de natação orgulhoso, reduzo o ritmo. Torna-se mais difícil progredir. Não são os braços que estão mais pesados, é a água que se adensa, como se congelasse, condensa a cada remada. Observando-me em câmara lenta, negoceio os níveis de oxigénio e sal dos meus pulmões. Os lábios gretam a cada suspiro do sol. Com o intuito de seguir a direcção correcta, mantenho os olhos abertos, mesmo que não consiga distinguir a linha do horizonte. A água e o céu unem-se numa única massa homogénea, concreta. O corpo, agora imóvel, solidifica, tornando-se propriedade do seu envolvente. A luz diminui à medida que me imobilizo, só o coração resiste pendendo em nenhuma direcção.

Filipe dos Santos Barrocas . 01 . 05 . 2011 . Buenos Aires

PEQUENAS ESTÓRIAS I . O QUARTO

O quarto diminui à medida que me vou encontrando nele, especialmente quando estou no seu interior.

Primeiro sinto-me como se estivesse a ser observado, sensação que rapidamente suprimo por saber que me encontro sozinho no seu interior, sinto frio. Em seguida apercebo-me que são as paredes que me acompanham, atentas, inclinam-se, rastejando até mim. Aproximam-se silenciosamente, descarregam o seu peso em mim deslocando-se graciosamente pelo espaço.
Devolvo a atenção mas não sou correspondido, só preciso estar atento para ter a certeza, fixo o olhar e nada, mas a sensação permanece. Quando desvio o olhar da parede da janela percebo que a parede da porta não se encontra no mesmo local, tenho a certeza, o armário não estava embutido. Tenho de estar atento.
Vou fechar os olhos e ouvir com atenção, impossível algo tão pesado mover-se tão silenciosamente.
A janela está mais pequena, já mal consigo observar a copa das árvores da calçada e o conjunto nacional. Sinto o corpo a tremer de frio. Procuro fechar a janela e aquecer-me com a manta mas o vão transformou-se num único plano fixo, imóvel, penetra na parede.

Filipe dos Santos Barrocas . 27 . 04 . 2011 . Buenos Aires

quarta-feira, 4 de maio de 2011

MESTRE I

E, PONDO-SE A CAMINHO, CORREU PARA ELE UM HOMEM, O QUAL SE AJOELHOU DIANTE ELE, E LHE PERGUNTOU: BOM MESTRE, QUE FAREI PARA PARA HERDAR A VIDA ETERNA?
(SÃO MARCOS 10,17)NOVO TESTAMENTO, SALMOS E PROVÉRBIOS, OS GIDIÕES, BRASIL, SÃO PAULO, CAMPINAS

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES III . COMUNICAÇÃO

Os sentimentos não têm formas definidas, logo torna-se difícil de materializa-los. Descreve-los por palavras, mais difícil ainda, estas são mentirosas. Posso lançar uma mancha de tinta preta acrílica diluída sobre o papel e reconhecer o meu estado de espírito, não posso esperar que este seja o veículo correcto à demonstração do mesmo.

Comunicação.

Não existem meios de expressão honestos, só existem formalizações facciosas dos nossos pensamentos situados longe do coração. Racionalizamos o gesto, o modo como seguramos o pincel. Queremos emancipar-nos, mas só nos distanciamos dos nossos instintos primários, da espontaneidade das nossas acções. Justificamos-nos para não nos sentirmos culpados das nossas atitudes, decisões.

Queremos e exigimos a liberdade mas prendemos-nos na sua idealização. Idealizamos o que foi conquistado pelos nossos avós incorporando actualmente a sua novidade e frescura. Vivemos cobertos das imagens que criticamos, vivemos-las sem as questionarmos. Somos o excremento de uma geração sem destino desesperada por encontrar consolo numa vagina húmida ou um pénis erecto.

Vivemos a indefinição do momento actual certos do que poderemos encontrar amanhã, acreditando. Somos os fiéis do século XXI crentes na profecia do Deus da voluptuosidade. Volúveis, encaramos a existência com uma faca na mão, disponíveis por tirar a vida de quem se aproximar. 

Permitimos-nos ser o carrasco da imaginação, o executor da liberdade incondicional, ser ou não ser é a questão. Não somos.

Filipe dos Santos Barrocas . 26 . 04 . 2011 . Buenos Aires