Divindade rejeitada por um fatal movimento em falso, a perdição de um olhar. Perdido caio sem me aperceber. Num determinado momento estou a planar sobre pinheiros, no momento seguinte, inesperadamente, estou caído no chão.
Onde estão as minhas asas?
Das costas uivam rasgos de dor e, das omoplatas dilaceradas, escorre sangue.
Onde estou?
Devido ao choque da queda perco momentaneamente o norte. Confuso e dorido, procuro abrigo. Presente na memória só os seus olhos. Indefeso, cubro-me com o primeiro pedaço de tecido pendurado no estendal mais próximo (como se estivesse em Lisboa), e arrasto-me pelas ruas até chegar à Avenida Paulista. Desloco-me discretamente atento procurando entender a conversa alheia do casal que anda à minha frente, acelero o ritmo da passada.
Oiço o que dizem mas não coincide com o que pensam. O espírito dele, jovem e indomável, confiante, percorre mentalmente as conquistas afectivas recentes enquanto os seus lábios proferem juras de amor. Ela sorri e acena ligeiramente com a cabeça na sua direcção, num gesto descontraído como se libertasse todo o peso que carregava no seu ombro.
Tenho de apagar da memória os seus tentadores olhos, aquele olhar. Tenho de encontrar um lugar sagrado para purificar a minha alma e prosseguir caminho. Estou perdido, não sei se esta é a direcção correcta. Oiço sinos de Igreja, devo estar perto, viro na Brigadeiro em direcção ao centro.
Os jovens casais a beijarem-se na calçada só me fazem recordar os seus volumosos e definidos lábios a aproximarem-se da minha testa, no sentido de confirmarem a tepidez da minha pele, comprimem-se suavemente. O seu olhar marcado de medo não escondia a emoção contida, o inalcançável amor transparecia no reflexo dos seus olhos.
Ajudou-me a erguer, cobriu o meu corpo amachucado com um lençol do estendal da casa da mãe, avisou-me: “cuidado com o escuro”. Ao virar-se na direcção do portão, oferecendo-me as costas, aperta-me o coração. Parte do que me mantinha vivo até então afastava-se para não mais voltar, eu disse: “tenho medo”. Ela, pela porta entreaberta, profere baixinho: “não é o fim”, fechando a porta.
Ajudou-me a erguer, cobriu o meu corpo amachucado com um lençol do estendal da casa da mãe, avisou-me: “cuidado com o escuro”. Ao virar-se na direcção do portão, oferecendo-me as costas, aperta-me o coração. Parte do que me mantinha vivo até então afastava-se para não mais voltar, eu disse: “tenho medo”. Ela, pela porta entreaberta, profere baixinho: “não é o fim”, fechando a porta.
Se ao menos voltasse a ser aceite, com as minhas asas, chegarei mais facilmente até ela, posso acompanha-la. Ansioso, acelero o passo, quero logo chegar. A Igreja estava fechada.
Filipe dos Santos Barrocas . 00:00 . 16 . 05 . 2011 . São Paulo
Filipe dos Santos Barrocas . 00:00 . 16 . 05 . 2011 . São Paulo



