"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

quarta-feira, 4 de maio de 2011

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES III . COMUNICAÇÃO

Os sentimentos não têm formas definidas, logo torna-se difícil de materializa-los. Descreve-los por palavras, mais difícil ainda, estas são mentirosas. Posso lançar uma mancha de tinta preta acrílica diluída sobre o papel e reconhecer o meu estado de espírito, não posso esperar que este seja o veículo correcto à demonstração do mesmo.

Comunicação.

Não existem meios de expressão honestos, só existem formalizações facciosas dos nossos pensamentos situados longe do coração. Racionalizamos o gesto, o modo como seguramos o pincel. Queremos emancipar-nos, mas só nos distanciamos dos nossos instintos primários, da espontaneidade das nossas acções. Justificamos-nos para não nos sentirmos culpados das nossas atitudes, decisões.

Queremos e exigimos a liberdade mas prendemos-nos na sua idealização. Idealizamos o que foi conquistado pelos nossos avós incorporando actualmente a sua novidade e frescura. Vivemos cobertos das imagens que criticamos, vivemos-las sem as questionarmos. Somos o excremento de uma geração sem destino desesperada por encontrar consolo numa vagina húmida ou um pénis erecto.

Vivemos a indefinição do momento actual certos do que poderemos encontrar amanhã, acreditando. Somos os fiéis do século XXI crentes na profecia do Deus da voluptuosidade. Volúveis, encaramos a existência com uma faca na mão, disponíveis por tirar a vida de quem se aproximar. 

Permitimos-nos ser o carrasco da imaginação, o executor da liberdade incondicional, ser ou não ser é a questão. Não somos.

Filipe dos Santos Barrocas . 26 . 04 . 2011 . Buenos Aires

Sem comentários:

Enviar um comentário