Os sentimentos não têm formas definidas, logo torna-se difícil de materializa-los. Descreve-los por palavras, mais difícil ainda, estas são mentirosas. Posso lançar uma mancha de tinta preta acrílica diluída sobre o papel e reconhecer o meu estado de espírito, não posso esperar que este seja o veículo correcto à demonstração do mesmo.
Comunicação.
Não existem meios de expressão honestos, só existem formalizações facciosas dos nossos pensamentos situados longe do coração. Racionalizamos o gesto, o modo como seguramos o pincel. Queremos emancipar-nos, mas só nos distanciamos dos nossos instintos primários, da espontaneidade das nossas acções. Justificamos-nos para não nos sentirmos culpados das nossas atitudes, decisões.
Queremos e exigimos a liberdade mas prendemos-nos na sua idealização. Idealizamos o que foi conquistado pelos nossos avós incorporando actualmente a sua novidade e frescura. Vivemos cobertos das imagens que criticamos, vivemos-las sem as questionarmos. Somos o excremento de uma geração sem destino desesperada por encontrar consolo numa vagina húmida ou um pénis erecto.
Vivemos a indefinição do momento actual certos do que poderemos encontrar amanhã, acreditando. Somos os fiéis do século XXI crentes na profecia do Deus da voluptuosidade. Volúveis, encaramos a existência com uma faca na mão, disponíveis por tirar a vida de quem se aproximar.
Permitimos-nos ser o carrasco da imaginação, o executor da liberdade incondicional, ser ou não ser é a questão. Não somos.
Filipe dos Santos Barrocas . 26 . 04 . 2011 . Buenos Aires
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