"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

domingo, 8 de maio de 2011

PEQUENAS ESTÓRIAS II . O HOMEM QUE CERTO DIA ACORDOU APERCEBENDO-SE QUE NÃO TINHA CORAÇÃO

Hoje acordei e apercebi-me que não estava inteiro, persistia uma sensação estranha de não estar completo, faltava algo. Rapidamente, no limiar do pânico, levanto-me e observo-me no espelho. Uma cabeça, dois braços, duas pernas, e um tronco, está cá tudo. Até as mãos e os pés continuam nas extremidades dos membros. Olho com mais atenção, tenho de ter a certeza, alguém poderia ter-me arrancado um braço durante a noite, e mesmo assim o sentir, é uma sensação recorrente de quem perdeu um membro recentemente. Nada como um teste para me certificar, pego numa caneta e num pedaço de papel e, sem o dizer em voz alta, levo a minha mão a executar o que só a minha cabeça sabia. Os braços existem. Não me passa pela cabeça ser uma perna pois não estaria de pé, é evidente. Volto para a cama e concentro-me na persistente sensação.
 
Haverá certamente uma explicação lógica para o fenómeno, em 28 anos, era a primeira vez que sucedia. Fechos os olhos e concentro-me na ausência, acreditando que, preenchendo-a, como se de um molde se tratasse, poderia identificar a sua forma. Poderia fazer uma lista mental das diversas partes do corpo e suas formas, e reconhecer imediatamente o elemento em falta, repondo-o no seu lugar.
 
Ao me concentrar, apercebo-me que a ausência não tem forma definida, ora distendida, ora contraída, adapta-se aos espaços existentes no meu corpo, acompanhando regularmente os ciclos da respiração. Distendendo, o peso da ausência espalha-se por todo o corpo entorpecendo-me os sentidos, impedindo-me de me mover. O corpo fica mais pesado. A ansiedade aumenta à medida que o peso persiste. Ao contrair, sinto como se me extraíssem a força vital, em contraponto ao peso anteriormente existente, fica apenas a leveza do vazio. O inconsequente, apático e não produtivo vazio.
 
No escuro desta manhã de Outono, com uma breve brisa a correr pela pequena janela, deixo-me ficar na cama. Na escuridão oiço o que me envolve, oiço o chiar dos travões nos pneus, oiço vozes na calçada, oiço e petrifico, algo não está correcto. Não oiço o bater do coração.

Filipe dos Santos Barrocas . 08 . 05 . 2011  . São Paulo

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