"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

sábado, 7 de maio de 2011

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES IV . VIAJAR

Chile com a defesa, lugar comum de uma breve passagem por Buenos Aires. Se Mafalda espera aqui à 2 anos, não me importo de esperar também e fazer-lhe um pouco de companhia num dia frio e ventoso como este. À beira da partida fazia falta parar por um momento. Com a carapaça capitalista penetrada e as sensíveis entranhas expostas, aguardo a chegada do café, balouçando sobre os dias passados. Observo a familiaridade conquistada à cidade. O peso que carregava foi levado juntamente com a minha carteira e o meu telefone, nem a inconsequente tentativa de me legalizar parece perturbar a tranquilidade encontrada. Sinto-me escolhido.
 
Navegando em mares tempestuosos, observo a esperançosa costa alcançável, nem os inúmeros dias sem me alimentar me impedem de prosseguir na sua direcção, uma força inimaginável preenche-me e me transporta. Não preciso de ninguém que navegue a embarcação por mim, o vento torna-se favorável. Alcançarei a margem grato pelas solidárias embarcações com que me cruzei, o clima afortunado que me seguiu e as permissivas tréguas impostas pelos meus inimigos.
 
Sou perfeito na minha imperfeição, e aceito-me.
 
Saúdo-vos a todos que me toleram.
 
Saúdo a vós que partilhais da divina missão que recai sobre mim, de existir, existindo no mais pequeno gesto, diariamente.
 
A vós que dais graça pela diária bênção do oxigénio sobre os vossos pulmões, saúdo-vos, permitis-me gozar cada inspiração e expiração.
 
Fodeu!
 
Morro a poucos metros da costa.
 
Quando consigo estar a distância suficiente para distinguir a margem um impulso leva-me a deixar a pequena embarcação e mergulhar. O instinto aflora em mim características de exímio nadador, embora não conscientes, observo cada braçada conscientemente. Efectuando graciosos movimentos, vencendo a inércia da água, deslizo suavemente na sua superfície. Atento à postura que faria qualquer monitor de natação orgulhoso, reduzo o ritmo. Torna-se mais difícil progredir. Não são os braços que estão mais pesados, é a água que se adensa, como se congelasse, condensa a cada remada. Observando-me em câmara lenta, negoceio os níveis de oxigénio e sal dos meus pulmões. Os lábios gretam a cada suspiro do sol. Com o intuito de seguir a direcção correcta, mantenho os olhos abertos, mesmo que não consiga distinguir a linha do horizonte. A água e o céu unem-se numa única massa homogénea, concreta. O corpo, agora imóvel, solidifica, tornando-se propriedade do seu envolvente. A luz diminui à medida que me imobilizo, só o coração resiste pendendo em nenhuma direcção.

Filipe dos Santos Barrocas . 01 . 05 . 2011 . Buenos Aires

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