"Passamos imperceptivelmente de uma cena, de uma idade, de uma vida para outra. De repente, ao descer uma rua, seja realidade ou sonho, apercebemo-nos pela primeira vez de que os anos passaram, de que tudo isso passou para sempre e só viverá na nossa memória; e depois a memória vira-se para o seu interior, com um estranho e pegajoso brilho, e passamos perpetuamente por essas cenas e incidentes, em sonho e devaneio, enquanto caminhamos pela rua, quando estamos deitados com uma mulher, quando estamos a ler um livro, quando estamos a conversar com um estranho... De repente, mas sempre com terrível insistência e sempre com terrível precisão, essas lembrança intrometem-se como fantasmas, e impregnam toda a fibra do nosso ser. Daí em diante, tudo se move em níveis mutáveis - os nossos pensamentos, os nossos sonhos, os nossos actos, a nossa vida inteira. Um paralelogramo no qual caímos de uma plataforma do nosso andaime para outra. Daí em diante, caminhamos divididos em miríades de fragmentos iridescentes, como um insecto com uma centenas de pés, uma centopeia de pés macios e ágeis que absorve a atmosfera; caminhamos com filamentos sensíveis que bebem avidamente o passado e futuro, e todas as coisas se fundem em música e tristeza, caminhamos contra um mundo unido, afirmando a nossa divisão." henry miller . primavera negra . 1963
"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência
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