"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

terça-feira, 15 de novembro de 2011

PEQUENAS ESTÓRIAS VI . INTRUÇÕES BÁSICAS PARA A AMPUTAÇÃO DE MEMBROS DO CORPO COMO RESPOSTA À NÃO RECIPROCIDADE AMOROSA – PARTE 01

Acorde e disponibilize-se a sentir o que esta manhã lhe trouxe. Concentre a sua atenção nos sons que advêm de fora da janela, nos sons do interior do quarto e nos sons do seu interior. Oiça e sinta. Caso:

1. os pássaros chilreiem lá fora numa melodia única e inspiradora. Levante-se, tome banho, vista-se e saia de casa, tome o café da manhã no exterior;

2. alguém toque à sua campainha carregando ingredientes frescos comprados na feira e se ofereça para cozinhar para si. Levante-se, receba-o com carinho, sirva-lhe do seu melhor vinho enquanto for tomar banho, vista-se e ofereça-se para ser o melhor assistente de cozinha que possa ser ou, caso o artista plástico seu companheiro de casa abra a porta do seu quarto, acordando-o ou não, e o convide para passar o dia a pintar a óleo. Levante-se, receba-o com um abraço caloroso, tome banho, vista-se e encontre-o na sala. Vá disponível para passar o dia a estender essa pasta oleosa mesmo que, acreditando que com esse gesto desvende a imagem que abrirá o caminho para a compreensão dos segredos do universo, só consiga passar o tempo a acompanhar os movimentos de uma velha senhora, vestida com uma capa, à chuva, sob a luz de um candeeiro de rua.

3. a voz no seu interior se sobreponha ao chilrear dos pássaros, ao tom do toque da campainha da porta da rua, ou ao som do ranger da maçaneta da porta do seu quarto. Você sabe o que tem de fazer. Levante-se e cumprimente cordialmente o seu companheiro de casa agradecendo-lhe o convite mas diga-lhe que já tem planos para hoje, deixe a campainha tocar e ignore o chilrear dos pássaros. Levante-se, caminhe até junto da janela e abra-a o máximo que conseguir, vá agora até às janelas da sala e da cozinha e efectue a mesma acção e retorne ao seu quarto trazendo uma cadeira. Deixe a porta aberta, posicione a cadeira no centro do espaço, abra o armário e retire do seu interior o cordel de corda resistente que seu amigo lhe trouxe do nordeste do Brasil. Amarre a corda ao seu braço, no pulso ou no ombro, na junção entre o úmero e a escápula, amarre a outra extremidade da corda à maçaneta da porta conferindo a distância, se necessário corte um pedaço, não vai querer que fique frouxa no momento, sente-se e espere. Abrace a espera, a qualquer momento virá uma corrente de ar, a porta se fechará e sentirá uma sensação de alívio.

Respeito a Julio Cortázar. Texto inspirado nos manuais de instruções das histórias de cronópios e famas do escritor argentino, escritos em Roma e Paris entre 1952 e 1959, publicado pela primeira vez em 1962.

Filipe dos Santos Barrocas . 15 . 11 . 2011 . São Paulo

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