"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

Friedrich Nietzsche, "Eterno Retorno", A Gaia Ciência

domingo, 13 de novembro de 2011

PEQUENAS ESTÓRIAS V . O HOMEM QUE NUNCA FOI

Certo dia apercebo-me que não continuo a ser o que até então sinto ter sido.
 
Num primeiro instante a estranheza dessa presença, num segundo, a familiaridade de um reencontro. Por fim a aceitação. 

 
Recebo-me de abraços e encontro-me na tua ausência. Revejo-me e me reencontro. Sou um parente distante reencontrado, acolhido e estranhado.

 
Este corpo já não me serve. As fibras cedem, os vasos dilatam e a massa retrai comprimindo a alma. Ilusão é acreditar que se pode viver no mesmo corpo a vida inteira.

 
Apego-me, desapego-me, saio, flutuo, reencontro e volto a apegar-me.

 
Errado não é apegar-me, é não saber quando me devo desapegar, até que esse momento chegue já me perdi um pouco.

 
É do conhecimento comum que a parte da alma que excede e flui pelos poros da pele, seja por ter crescido demasiado ou por o corpo diminuir, ao se separar da maior parte transforma-se em água. Não existem almas completas e os rios transbordam.

 
Aceito-me na minha incompletude.


Reconheço o que me alimenta em ti, é o mesmo que me consome, o que é servido na nossa mesa é parte de mim.
 

Apego-me, abraço-me, desapego-me, despeço-me e saio.
 

Amo-te.

murdering tripping blues . knocking at the backdoor music . man that never was . lisboa . 2008





Filipe dos Santos Barrocas . 10:00 . 13 . 11 . 2011 . São Paulo

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